MANDIOCA , DILMA E DIRCEU

A fala de Dilma, para não variar, continua sendo bastante estranha. Depois
de ter saudado a mandioca e mencionado que a evolução dos “homens e
mulheres sapiens” ocorreu a partir da bola, naquele caso de folhas de
bananeiras, na ocasião de solenidade dos Jogos Mundiais dos Povos
Indígenas que o Brasil cedia em outubro, dessa vez comparou a denúncia do
empreiteiro Ricardo Pessoa à de Joaquim Silvério dos Reis na Inconfidência
Mineira, no século 18. Também comparou-se, dizendo que mesmo torturada não
denunciou seus companheiros de guerrilha, no início da década de 1970. São
situações muito diferentes, obviamente. A Inconfidência Mineira passou à
história como um momento de grande heroísmo patriótico, contra a Coroa
portuguesa. Dilma evidentemente se reconhece na guerrilha brasileira dos
anos 60-70 – sua foto de campanha em 2014, a do “coração valente”, remete à
sua participação na luta armada. Ora, nesse caso, o delator Ricardo Pessoa
estaria “traindo” que tipo de luta heróica? Em benefício de Dilma, digamos
que ela pode sim ser honesta, e ter se empenhado em desmontar os
dispositivos de corrupção que herdou da época de José Dirceu e dos governos
Lula. Não duvido que Lula e Dirceu seriam capazes de dar ótimas explicações
para todo o dinheiro “expropriado” do estado e das empreiteiras. Mas Dilma,
que herdou quase acidentalmente boa parte do poder de Dirceu no governo
Lula, inclusive a indicação para a sucessão, não reza pela mesma cartilha.
Por isso mesmo é estranho que ela compare a corrupção petista à
Inconfidência Mineira, e mesmo à guerrilha. Essa última, se teve erros
políticos catastróficos, nunca perdeu uma certa dignidade idealista, não se
misturando aos ladrões de galinha. A denúncia premiada, ao contrário da
tortura no tempo da ditadura, é uma prática juridicamente reconhecida – em
lei que foi sancionada pela própria Dilma, em 2013. A presidente está
abusando de seu direito à confusão conceitual. Dilma, mesmo se for honesta,
vai acabar pagando pela “flexibilidade” de Lula e de Dirceu no trato com a
coisa pública – não haverá estratégia eficiente para descolá-la dessas
práticas e não ajuda nada ela passar esse recibo de que é feita da mesma
matéria. Um dos inconfidentes, Tomás Antonio Gonzaga, usava o nome poético
de Dirceu, mas o Dirceu deles não é o nosso.