O CÍRCULO DA MALANDRAGEM

Nessa semana escrevo sobre a relação da sociedade e da malandragem. A vida
em sociedade exige algum grau de confiança nas pessoas e nas instituições.
Um alto grau de confiança facilita, melhora e torna mais fácil a vida. Por
outro lado, um baixo grau de confiança exige que as pessoas se defendam e se
preparem para ações nocivas e prejudiciais por parte de outras pessoas e de
falhas nas instituições. Nestas ações acauteladoras são utilizados bens,
serviços e tempo que poderiam ser utilizados em outras atividades de maior
utilidade social ou particular. Para que se alcance um alto grau de
confiança é preciso que a verdade prevaleça nas relações humanas. A verdade
é o caminho para a criação da confiança. A crença ou confiança no respeito a
palavra empenhada e, portanto, no cumprimento de contratos sociais ou
particulares, implícitos ou explícito são a base da vida em sociedade. Sem
isso vigoraria a lei das selvas ou a lei do mais forte. De outra parte,
lembrando que o progresso econômico é fruto do investimento e que o
investimento é uma aposta de confiança no futuro. Havendo este clima de
confiança, alguém metido a esperto ou malandro pode querer se aproveitar e
tirar vantagem da “boa-fé” alheia. Em curto prazo e individualmente, ele
pode beneficiar-se. Ocorre que outros, vendo este comportamento, são
estimulados a também procurar ser espertos ou malandros e, com isso, todo o
clima de confiança desaparece, prejudicando toda a sociedade, e, portanto,
acabando com a eventual vantagem do primeiro malandro. Para que este último
recupere a vantagem inicial ele vai precisar ser mais malandro, mais esperto
que os demais. Com isso, haverá reação de outros, iniciando uma acirrada
competição de malandragem. Diversos países e instituições, para coibir ou
restringir a vontade de ganhar vantagem malandramente, além de cultivarem
padrões éticos de comportamento, estabelecem, e cumprem, severas punições
para os infratores. Em nosso País, nos últimos anos a mentira se tornou um
valor social com grande cobertura na mídia nacional. É necessário um esforço
coletivo e solidário para restabelecer um padrão mínimo de confiança. O
Brasil e o mundo precisam de pessoas comprometidas com valores éticos,
capazes de resistir ao canto da sereia das vantagens imediatas e de liderar
a reconstrução de um clima de confiança baseado na força da verdade.