A virada do arrastão

Nunca fui favorável à “Virada Cultural”. Quem a defende sustenta que é a oportunidade do povo espairecer durante 24 horas, assistindo a shows, dançando, cantando e se desestressando. Notadamente em São Paulo, capital, insensata concentração de 20 milhões de habitantes, considerada a conturbação.

 

Gasta-se quanto com esse evento? E qual o seu fruto? O dinheiro não é pouco. Dinheiro do povo. Povo sem vacina ou atendimento digno na saúde, sem transporte público decente, sem educação, sem moradia, sem verde, sem qualidade de vida ou ambiente saudável.
Neste ano, houve arrastões e duas mortes. Facadas, tiros, agressões e muita, muita bebedeira. As explicações para esse resultado, acho que não entendi bem. Falou-se que “os ladrões foram atraídos”. É isso mesmo? Ou essa violência reprimida quando cada qual permanece no seu próprio bairro, vai desabrochar na concentração de um grande número de pessoas?
Na verdade, o Brasil é um país pobre. A pobreza continua, nada obstante o ufanismo da redução da miséria. Não fosse pobre e um boato em relação à “bolsa família” não teria ocasionado o caos no norte e nordeste, com pessoas depredando bancos e querendo receber fora do dia designado o seu auxílio-fome.
Pois São Paulo não é tão diferente. Há muitos ricos ali, mas os pobres são em número maior. Pobres não somente de meios materiais, mas pobres em educação, em cultura, em civilidade. Propicie-se uma agregação de milhares ou milhões de pessoas, todas submetidas a ritmos suscetíveis de exacerbação dos ânimos e o descontentamento com a falta de perspectivas desaguará em excessos de violência.
Será que a “Virada Cultural” não poderia ser feita durante o ano todo e de outra forma? Uma “Virada ética”, uma “Virada de civilidade”, uma “Virada de Teatro”, de literatura, de música erudita, de artes plásticas. Dir-se-á: o povo não gosta disso. É subestimar o povo. Dê-se a ele coisa de qualidade e ele corresponderá. Basta verificar o que os maestros conseguem na periferia com orquestras de jovens antes disso destinados a servir ao tráfico. Vamos pensar nisso e evitar mortes e arrastões. O futuro agradecerá aos detentores do poder de gastar dinheiro do povo.